terça-feira, 6 de maio de 2014

O FUTEBOL ASSASSINADO

ZERO HORA 06 de maio de 2014




EDITORIAL


A morte de um torcedor atingido pelo vaso sanitário lançado das arquibancadas do Estádio do Arruda, em Recife, na última sexta-feira, tem que servir como ponto de inflexão na questão da violência no futebol brasileiro. E não é apenas porque o escatológico episódio repercutiu em todo o mundo, desgastando ainda mais a imagem do país que promoverá a próxima Copa. É porque chegou a hora de dar um basta no vandalismo, nas brigas e nos abusos cometidos por delinquentes que estão tentando assassinar o futebol com comportamentos verdadeiramente boçais. Chega a ser inacreditável um episódio como esse, em que vândalos arrancaram o equipamento dos banheiros femininos do estádio e lançaram-no do anel superior, de uma altura de 24 metros, sobre os torcedores adversários no momento em que se retiravam, escoltados pela Polícia Militar. O jogo entre o Santa Cruz e o Paraná, pela série B do campeonato brasileiro, já havia terminado quando ocorreu o atentado.

A CBF já interditou o Estádio do Arruda e está punindo o clube com perda de mandos de campo. Mas essa é uma punição insignificante diante da perda de uma vida. Como a PM já havia se retirado no momento em que ocorreu o incidente, a vigilância dos torcedores no ambiente interno deveria ter sido feita pela segurança patrimonial do próprio clube, que será responsabilizado por isso. Responsabilizar o clube é uma forma de forçá-lo a vigiar seus torcedores.

Igualmente importante é a investigação policial destinada a identificar os marginais que cometeram o crime. Um comportamento tão selvagem e estúpido não pode ser atribuído apenas aos arroubos juvenis de torcedores irresponsáveis. Quem lança um objeto desses sobre outras pessoas está assumindo a vontade de ferir e matar. São, portanto, criminosos e têm que ser tratados como tal. Devem ser julgados por homicídio doloso.

Outro ponto dessa deplorável história é a falta de prevenção. Os bombeiros que fazem a vistoria nos estádios sugerem que os clubes instalem banheiros semelhantes aos existentes em presídios, com peças sanitárias internas, que não possam ser arrancadas. Só que o controle de marginais não pode se resumir a um truque de engenharia. Como, então, se faz isso? Certamente com vigilância, com policiamento preventivo e com punição rigorosa e exemplar para os infratores. Mas, principalmente, com inteligência: as autoridades e os próprios administradores dos estádios têm o dever de garantir segurança nas praças esportivas, colocando câmeras de vigilância e agentes no meio do público, para coibir comportamentos inadequados antes que eles resultem em tragédia. O país não pode mais aceitar mortes como essa, pois, cada vez que um torcedor perde a vida numa circunstância dessas, o futebol também morre um pouco. Não podemos deixar esta paixão nacional ser assassinada dessa forma.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Exatamente, a solução é sabida e há exemplos no mundo. É preciso contar com medidas preventivas, "com vigilância, com policiamento preventivo e com punição rigorosa e exemplar para os infratores". Porém, a grande dificuldade neste país surreal é fazer estes procedimentos funcionarem em conjunto como um sistema, onde as leis são fortes e um dá amparo e continuidade ao outro. A vigilância é vulnerável, o policiamento é insuficiente e as punições são lentas, brandas e sem controle que alimentam a impunidade e não coíbem os delitos. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

TORCEDOR MORRE ATINGIDO POR PRIVADA ARREMESSADA DE ESTÁDIO NO RECIFE

FOLHA.COM, 03/05/2014


DANIEL CARVALHO
DO RECIFE0



Um torcedor do Sport Club do Recife que estava na torcida do Paraná morreu ao ser atingido por um dos dois vasos sanitários arremessados do alto do estádio do Arruda, no Recife, após o jogo entre Santa Cruz e o clube paranaense, na noite desta sexta-feira (2).

Paulo Ricardo Gomes da Silva, 26, saía do estádio com a torcida do Paraná, quando foi atingido. Outras três pessoas foram atingidas por estilhaços dos vasos e foram levadas para unidades de saúde do Estado. Segundo a Secretaria de Saúde, nenhuma corre risco de morrer.


Carlos Ezequiel Vannoni/Agencia JCM/Fotoarena

Perícia do departamento da Polícia Civil no local onde um torcedor foi atingido por um vaso sanitário


Válido pela Série B do Campeonato Brasileiro, a partida terminou 1 a 1.

Câmeras da Secretaria de Defesa Social flagraram o momento em que as privadas foram arremessadas, mas não mostram quem as atirou da arquibancada. A polícia ainda não tem suspeitos. Se identificados, os culpados deverão ser indiciados por homicídio doloso, quando há intenção de matar.
Reprodução/Facebook/Paulo Ricardo

Paulo Ricardo tinha colocado foto no Facebook onde aparece ao lado da presidente Dilma


As privadas foram arrancadas de um dos banheiros do estádio, de acordo com a Secretaria de Defesa Social.

O secretário da pasta, Alessandro Carvalho, responsabilizou o Santa Cruz pela morte do torcedor. Segundo Carvalho, o clube não tem as câmeras internas exigidas pelo Estatuto do Torcedor e deveria ter garantido segurança privada no interior do estádio.

"O que deixou de ser feito não foi por parte do Estado, foi por parte do Santa Cruz. Houve uma falha? Houve. E eu atribuo ao clube. O clube é responsável pelo que acontece dentro da área dele", afirmou Carvalho neste sábado (3). "Fazer vistoria para saber se ficou algum torcedor [no banheiro], não existe", afirmou.

Questionado sobre a responsabilidade de exigir do clube as câmeras, o secretário indicou a Federação Pernambucana de Futebol e a CBF.

O presidente do Santa Cruz, Antônio Luiz Neto, foi procurado pela Folha no final da manhã deste sábado (3), mas não foi encontrado.

Uma câmera instalada pela Secretaria da Defesa Social na rua das Moças, nos fundos do estádio, mostrou a correria no local.


SEGURANÇA


De acordo com o governo de Pernambuco, havia 8.029 torcedores e 228 policiais militares dentro e fora do estádio. A Secretaria de Defesa Social disse que esse efetivo se justifica porque o evento é considerado como de "menor potencial de problemas".

"Quem tem que fazer a segurança patrimonial não é a Polícia Militar de Pernambuco, é o clube que está organizando o jogo. O policiamento foi proporcional [à dimensão do jogo]", afirmou Carvalho.

Segundo o governo, o jogo terminou às 22h50 e a torcida do Santa Cruz foi liberada primeiro. A torcida do Paraná, junto com torcedores do Sport –cerca de 50 pessoas, de acordo com o secretário–, saiu escoltada do estádio às 23h10.

Houve um rápido princípio de confusão com torcedores do Santa Cruz que moram no entorno do estádio, de acordo com a Polícia Militar. Os vasos foram arremessados justamente quando os torcedores do time visitante passavam pela Rua das Moças.

Brigas entre torcidas organizadas são comuns após jogos em Pernambuco. Em março, torcedores do Santa Cruz arrancaram privadas da Ilha do Retiro, sede do Sport. Também há registro de depredação e arrastões. Na semana passada, torcedores do Santa Cruz invadiram o clube e hostilizaram jogadores.

Desde abril deste ano, as torcidas organizadas foram proibidas pela Justiça de Pernambuco de entrar em estádios no Estado.


SANTA CRUZ


O presidente do Santa Cruz, Antônio Luiz Neto, disse em entrevista à "TV Globo" que o o time "se sente vítima" e que o estádio estava fechado no momento do crime.

"O Santa Cruz se sente vítima. Afinal de contas, a Polícia Militar já havia cumprido com sua obrigação e esvaziou o estádio com a torcida do Santa Cruz primeiro, esvaziou completamente, fez a vistoria, depois de 15 minutos, tirou a torcida visitante, entregou o estádio com portões fechados ao Santa Cruz, o Santa Cruz fechou todo o estádio e, em seguida, acontece essa invasão, que gera esse crime estúpido", afirmou.

Na mesma entrevista, Antônio Luiz Neto diz que "o Santa Cruz é contra vândalos" e defendeu que a presença deles nas torcidas organizadas seja apurada.

"Se as torcidas organizadas têm dirigentes que se juntam para formar quadrilha, isso tem que ser apurado", afirmou o dirigente, que se comprometeu a banir os torcedores "que depredaram o patrimônio do clube".

A Folha tentou, mas não conseguiu falar com ele neste sábado.


ORGANIZADAS NA PRIVADA


ZH 05/05/2014 | 08h49 - Opinião

DE FORA DA ÁREA

por Paulo Germano, repórter de ZH



Tijolo, barra de ferro, arma de fogo, faca, sinalizador de navio, tudo isso ajudou a matar 234 pessoas que, entre 1988 e 2013, sucumbiram à violência das torcidas brasileiras — uma média superior a nove mortes por ano, conforme levantamento do jornal esportivo Lance!. Em 2014, pedras e punhais parecem fora de moda: a novidade, agora, é matar com vaso sanitário.

Na sexta-feira passada, Paulo Ricardo Gomes da Silva, um soldador da periferia de Recife, morreu aos 26 anos depois que torcedores do Santa Cruz-PE, minutos após o fim da partida contra o Paraná, arrancaram duas privadas do banheiro e as arremessaram para fora do estádio. Lá embaixo, na calçada, integrantes da torcida organizada Fúria, do Paraná, deixavam o Arruda escoltados pela Polícia Militar. Uma das peças de cerâmica se espatifou na cabeça de Paulo Ricardo, que era, na verdade, membro de uma organizada do Sport, clube rival do Santa Cruz em Recife.

Importante que o leitor entenda: a Torcida Jovem, do Sport, é aliada da Fúria, do Paraná. Por isso, Paulo Ricardo e seus amigos rubro-negros receberam os visitantes na capital pernambucana, ofereceram churrasco, cerveja e proteção contra possíveis ataques de torcedores do Santa Cruz — que, por sua vez, são aliados da Império Alviverde, principal organizada do Coritiba, rival do Paraná.

No país inteiro, organizadas de médio e grande porte mantêm parcerias com torcidas de outros estados: um dos objetivos maiores é garantir apoio em confrontos contra grupos adversários. Em Porto Alegre, em junho de 2012, antes de um jogo entre Grêmio e Flamengo, eu cobria como repórter a movimentação da torcida Geral no antigo Bar dos Borrachos, nos arredores do Olímpico. Lá pelas tantas, um táxi que levava uma mulher, um menininho — de, no máximo, sete anos — e um rapaz com a camisa do Flamengo cruzou a frente do boteco e parou no sinal vermelho.

Cerca de 15 gremistas, furibundos porque as organizadas do Flamengo são coligadas às do Inter, destruíram o táxi com tijoladas e voadoras e, após quebrar o para-brisa traseiro, encheram de socos a cara do flamenguista. Quando o sinal abriu, o taxista arrancou desesperado, para decepção de um dos brigões:

— Aaaah, tinha que ter matado!

No dia seguinte, telefonei para o líder de uma organizada do Inter.

— Não vou ser hipócrita: teríamos feito o mesmo se o passageiro usasse camisa do Palmeiras — ele disse, pedindo sigilo de identidade e lembrando que os palmeirenses têm apoio das torcidas do Grêmio.

Como se vê, a violência das torcidas atravessa fronteiras, não tem bairrismo, é disseminada. Muitos dizem que as organizadas são responsáveis pela beleza do espetáculo e que, por isso, não podem ser extintas. Honestamente, eu quero que a beleza se exploda. Quero que enfiem a beleza em um vaso sanitário e levem-no para casa, antes que outra privada desmanche a cabeça de mais alguém.

DELEGACIAS ESPECIALIZADAS NOS ESTÁDIOS

CORREIO DO POVO 04/05/2014 21:02


Dilma defende delegacias especializadas nos estádios de futebol. Torcedor do Santa Cruz foi morto após jogo da Série B em Recife na sexta




A presidenta Dilma Rousseff defendeu neste domingo a instalação de delegacias especializadas nos estádios de futebol. Por meio do Twitter, a presidenta também afirmou que a violência nos estádios precisa ser coibida pelas polícias locais. A mensagem foi divulgada após o enterro do corpo do torcedor Paulo Ricardo Gomes da Silva, de 26 anos, morto após partida entre o Santa Cruz e o Paraná, válida pelo Campeonato Brasileiro da Série B. Na sexta-feira , ele foi atingido por um vaso sanitário, jogado do alto da arquibancada, quando deixava o Estádio do Arruda, em Recife.

"O país que ama o futebol não pode ser tolerante com a violência nos estádios. A morte do torcedor Paulo Ricardo Silva depois de uma partida de futebol no Recife é mais um triste exemplo da urgência de se instalar delegacias especializadas nos estádios. A violência nos estádios precisa ser coibida com rigor pelas polícias locais. Os criminosos devem processados e julgados. Estádios de futebol são palco da alegria e da paixão. Devemos todos nos unir pela paz nos estádios", escreveu a presidenta.

Após a morte do torcedor, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) interditou o Estádio do Arruda. Em nota, a CBF justificou a medida pela “gravidade do incidente” e informou que ela tem validade a partir de hoje até que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) “analise o caso e tome as providências cabíveis”.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

TORCEDOR QUE ATIROU BANANA É BANIDO DO ESTÁDIO

O Estado de S. Paulo, 28 de abril de 2014 | 15h 03


Villarreal pune para o resto da vida torcedor que atirou banana em campo. Equipe espanhola publica nota garantido que responsável por jogar fruta em Daniel Alves será banido do estádio El Madrigal


SÃO PAULO - O Villarreal, equipe que disputou a 35ª rodada do Campeonato Espanhol com o Barcelona, no último domingo, divulgou nota garantido que já identificou o torcedor que atirou uma banana no lateral-direito da equipe adversária, o brasileiro Daniel Alves, e mais, afirmou que o responsável já teve o seu carnê de sócio retirado, e que nunca mais poderá acessar o estádio El Madrigal.


Reprodução


"Graças às forças de seguranças e à inestimável colaboração da exemplar torcida amarela, o clube já idenfiticou o autor (do ato racista) e decidiu retirar seu carnê de sócio, além de proibir seu acesso ao estádio El Madrigal pelo resto da vida", publicou o Villarreal por meio de seu site oficial.

Na nota, o clube ainda fez questão de repudiar qualquer manifestação e atos preconceituosos, além de lamentar o ocorrido ressaltou que não serão toleradas atitudes que incentivem a discriminação.

"O Villarreal volta a manifestar sua vocação pelo respeito, pela igualdade, pela desportividade e pelo jogo limpo, tanto dentro como fora do campo, e rechaça qualquer ato que vá contra esses princípios, como violência, discriminação, racismo e xenofobia", ressaltou o comunicado.

O CASO

O lateral-direto do Barcelona e da seleção brasileira, Daniel Alves, se preparava para cobrar escanteio quando uma banana foi atirada por um torcedor do Villarreal, mandante da partida. O jogador pegou a fruta do chão e comeu, ironizando o ato racista.



Torcida joga banana para Daniel Alves, que come e cruza para gol do Barcelona. Brasileiro foi mais uma vez insultado por torcedores na Espanha, mas dá de ombros e dá exemplo

27 de abril de 2014 | 18h 04

O Estado de S. Paulo



VILLARREAL - O brasileiro Daniel Alves voltou a ser vítima de racismo na Europa. Na partida entre Villarreal e Barcelona, neste domingo, pelo Campeonato Espanhol, a torcida do time da casa jogou uma banana em direção ao lateral-direito da seleção brasileira quando ele se preparava para cobrar um escanteio. A cena não é inédita no futebol. Provocações desse tipo têm se alastrado no esporte.


Mas desta vez, a intenção do torcedor espanhol racista não deu certo. Irreverente, Daniel Alves não se intimidou com a agressão, pegou a fruta no chão dois passos à sua frente e decidiu comê-la, tirando de letra a ofensa e dando exemplo. Na sequência da jogada, o brasileiro bateu dois escanteios seguidos como se nada tivesse acontecido. No segundo deles, já com a banana digerida, saiu o segundo gol do Barcelona.

Um dos atletas que mais sofrem com racismo no futebol europeu, Daniel Alves deu mostra de que é superior a esse tipo de discriminação racial e ajudou sua equipe a vencer o Villarreal por 3 a 2, com duas assistências para gols. O resultado deixa o Barcelona ainda na disputa pelo título Espanhol, agora com 84 pontos, na segunda colocação. O líder Atlético de Madrid está com 88.

Após o jogo, Daniel Alves continuou mostrando-se acima de qualquer provocação racista. "Estou na Espanha há 11 anos e há 11 anos é dessa maneira. Temos de rir dessa gente atrasada", disparou o brasileiro, prestes a ter seu nome confirmado para disputar a Copa do Mundo com a seleção brasileira.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

PAIXÃO E VIOLÊNCIA NO FUTEBOL

pré-Univesp
pré-Univesp – No. 1 2010 – Copa do Mundo – Jun 2010


Artigos


Torcer sim, mas perder a linha que separa o “eu” e o clube e cometer atos insanos jamais, diz professora da Unicamp

Por Heloisa Helena Baldy dos Reis





Os brasileiros ao nascerem recebem duas denominações que os acompanharão por toda a vida: um nome e um time para torcer. A predileção por um time de futebol é quase que herdada. Aqueles filhos que renegam essa herança são vistos como traidores e causam grandes decepções e frustrações aos seus progenitores. Mas não irei falar das exceções e sim da regra.

A paixão clubística pelo futebol é herdada e passa a ser vivida já a partir dos primeiros anos de vida. Ela é verificada pelo uso de uniformes dos times, principalmente as camisas. A criança, com sua natural ingenuidade, aprende dentre as primeiras palavras o nome do seu time. E por que será que na sociedade moderna, urbanizada, o futebol torna-se uma grande paixão? Há muitas explicações e eu abordarei algumas delas.

O principal motivo para um indivíduo sentir-se atraído pelo futebol é, segundo estudiosos do esporte, o grande prazer que essa atividade proporciona ao seu público. As dimensões do campo, o número de jogadores, o tamanho do gol e o equilíbrio na disputa entre as equipes provocam nos espectadores uma tremenda excitação, porque há um longo período de expectativa entre a saída da bola e a chegada da mesma nas zonas de maior probabilidade de gol. Os passes e os dribles provocam no público certa tensão, que será elevada dependendo do equilíbrio estabelecido entre as equipes rivais, pois jogos muito fáceis não são tão excitantes.

E por que o ser humano dos séculos XX e XXI precisa buscar o prazer nos jogos de futebol, seja dos times profissionais ou mesmo em “peladas” de final de semana? As respostas são dadas pela observação de um processo civilizador vivido pela humanidade, no qual os indivíduos foram criando uma espécie de autocontrole da expressão de seus sentimentos em público. Isso tem diferentes níveis se compararmos sociedades distintas, mas algo parece semelhante em quase todas elas: a seriedade verificada no mundo do trabalho. O trabalho exigiu das pessoas seriedade, autocontrole e disciplina. Todas essas exigências são relaxadas nas atividades de lazer, como é o caso do espetáculo futebolístico.

O futebol é uma possibilidade de vivência controlada de descontroles, ou seja, de expressão de emoções em público, e a castração das emoções no ambiente do trabalho fez com que os indivíduos passassem a ter necessidade de busca por atividades miméticas, como é o caso do espetáculo esportivo.

Mas o que são essas atividades miméticas? São todas as atividades que permitem aos indivíduos a vivência de fortes emoções, sendo que estas não trarão, a princípio, riscos para os mesmos. A derrota do time em um jogo, por exemplo, poderá ser vivida com fortes emoções de frustração, tristeza e desespero, a ponto de levar os torcedores do time que perdeu ao choro, ao grito de ódio pela perda. No caso de uma vitória, os torcedores chegam a sentir tanta alegria a ponto de soltar gritos de emoção. Sentimentos de poder, de grandeza e de força são vivenciados e muitos chegam a chorar de felicidade quando a conquista é muito desejada e a vitória se concretiza.

A paixão pelo futebol começa a tomar uma dimensão preocupante e a se tornar um problema quando a percepção da identidade individual do torcedor fica frágil e comprometida, a ponto do indivíduo não perceber quem é ele e quem são seus ídolos. O torcedor e a paixão clubística misturam-se e começam a acontecer atos transgressores, agressões fortuitas, e até delitos e atos vandálicos.

A violência nos dias de jogos de futebol transformou-se em uma questão de segurança pública em diversos países e, no Brasil, já fez 64 vítimas fatais, apenas nãos jogos da elite do futebol brasileiro. Nos anos de 1980, a violência no futebol parecia um problema localizado apenas na Inglaterra, onde recebeu o nome de hooliganismo. Hoje, no entanto, é um problema quase planetário.

Para pensar em prevenção dessa violência, é necessário buscar suas raízes, suas causas diretas e indiretas. Quarenta e seis países europeus adotaram políticas nacionais de prevenção elaboradas a partir de um acordo firmado no Conselho da Europa. A gota d'água foi a tragédia do estádio Heysel, na Bélgica, em 1985, que deixou 39 mortos na final da Copa dos Campeões. Os primeiros participantes do Convênio Europeu sobre a violência e mau comportamento em eventos esportivos, proposto após a tragédia de Heysel, foram Inglaterra, Itália e Espanha, entre outros. Hoje, estes são os países com maior sucesso na promoção de espetáculos de futebol.

O Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo (França), hoje cobre praticamente todo o continente europeu, com seus 47 países membros, incluindo os 27 que formam a União Europeia. Fundado em 5 de Maio de 1949 por 10 países, o órgão tem como propósitos a defesa dos direitos humanos, o desenvolvimento democrático e a estabilidade político-social na Europa. O Conselho da Europa tem personalidade jurídica reconhecida pelo direito internacional e serve cerca de 800 milhões de pessoas.

A Espanha e vários países da Europa assinaram em 19 de agosto de 1985, na cidade de Estrasburgo (França), o Convênio do Conselho Europeu, “Convênio Europeu sobre a Violência de Espectadores e de Maus Comportamentos em Eventos Esportivos e em nos Jogos de Futebol”.

Na Espanha, trabalhos acadêmicos e de inteligência policial subsidiaram a elaboração da Lei de Esporte espanhola, de 1990, que dedicou um capítulo especificamente ao tema. Essa legislação tornou ágil o julgamento dos delitos e imputou aos clubes as penas em casos de violência de seus torcedores, assim como aos indivíduos envolvidos em atos de violência e/ou de vandalismo no estádio e em suas imediações. A lei já passou por duas revisões: a primeira versão entrou em vigor em 2007 e a última foi aprovada em março deste ano e entrará em funcionamento a partir de 01 de julho de 2010.

No Senado brasileiro tramita, desde o primeiro semestre de 2009, um projeto de lei, originário do poder Executivo, que modifica e amplia os direitos e deveres dos torcedores e dos organizadores do evento esportivo. Um dos principais acréscimos é a responsabilização criminal e civil tipificada para ocorrências de atos ilícitos em relação com espetáculos esportivos.

Estudos realizados na Europa concluíram que a falta de infra estrutura dos estádios é diretamente responsável pelos atos de vandalismo e de outras formas de violência no interior dos mesmos. Por isso, muitas recomendações do Tratado Europeu dizem respeito à modernização dos estádios. Segundo as autoridades europeias, ambientes confortáveis e seguros inibem a violência.

O Tratado Europeu é um tratado sobre a prevenção da violência em espetáculos esportivos e do mau comportamento de espectadores, com atenção especial ao futebol, assinado pelos países membros do Conselho da Europa a partir de 1985.

No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da infra estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas. O confronto de torcedores no Estádio do Pacaembu em 1995, na final da Copa São Paulo de Juniores, parecia ter sido a gota d'água. Porém, outras tragédias se sucedem ano a ano. O episódio de 1995 chocou a sociedade pela crueldade dos jovens agressores armados com entulhos encontrados no próprio estádio, o que é inadmissível em todos os aspectos.

O futebol não é só futebol. Este esporte é, em muitos países, a expressão de seu povo.

Torcer, ter admiração por um time, reunir-se com amigos e estranhos a beira de um campo... tudo isso é muito sadio e prazeroso! Agora, perder a linha que separa o “eu” e o clube, cometer atos insanos e causar pânico à população são patologias de uma sociedade que ainda busca caminhos para a paz, a tolerância e a harmonia.



*Heloisa Helena Baldy dos Reis é livre docente e coordenadora do Grupo de Pesquisa de Futebol (GEF) da Unicamp e autora dos livros Futebol e violência, pela Editora Autores Associados, e Futebol e sociedade, pela Liber Livros.

Foto: Heitor Shimizu



http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/118/paix-o-e-viol-ncia-no-futebol.html

sábado, 5 de abril de 2014

CONDUTA DISCRIMINATÓRIA


ZERO HORA 05 de abril de 2014 | N° 17754

ARTIGOS

por Luiz Carlos Mabilde*




A cada nova edição de conduta discriminatória (CD) nos estádios de futebol, mais pessoas (chocadas) indagam umas às outras e às autoridades se tais fatos não deixarão de ocorrer. A CD envolve agressão, sofrimento mental e pode adquirir grande magnitude. Apesar disso, repetem-se atos de intolerância, ódio irracional ou aversão a outras pessoas, por razões étnicas, religiosas, culturais, sexuais e tantas outras.

Trata-se de uma atitude preconceituosa, pois é consequente a uma ideia formada sem contestação, fundamento sério ou reflexão que a justifique. Ela começa pela influência da família, cresce nas escolas, clubes e ruas, fortalece-se nas instituições, estádios e partidos; finalmente, estrutura-se nas cidades e países. Algumas constatações agravam ainda mais o problema: todos discriminam, não havendo período da História isento de CD e, o que é pior, ela parece imperturbável.

Freud buscou outros fatores para melhor compreender o padrão cultural preconceituoso e sua inalterabilidade. Encontrou-os na própria personalidade humana. De início, entendeu que o narcisismo imporia um isolamento pessoal ou grupal dos outros por não tolerar diferenças. Depois, percebendo a agressividade intrínseca ao homem, Freud afirmou: “O homem é o lobo do homem”, na medida em que o próximo é alguém que o tenta a satisfazer toda sua agressividade. Bastam os seguintes exemplos: as invasões dos hunos, dos mongóis, dos cruzados e o holocausto perpetrado na última guerra mundial.

O fenômeno apocalíptico – como ideologia profunda da personalidade – completaria a equação causal da CD. O apocalipse é uma visão do mundo e de seu final. Um julgamento. Uma crença de que os inimigos de um povo seriam erradicados pelos anjos bons do céu, restando na terra apenas os justos. Assim, o esquema apocalíptico contém ideias patológicas de destruição selvagem dos outros e de renascimento messiânico de um só grupo, o que inevitavelmente evoca a CD, na proporção cabível para cada evento estudado.

Não parece haver fórmula mágica para erradicar a CD como parte do comportamento humano. Encará-la como produto do preconceito associado a um distúrbio mental seria, além do enquadramento penal, outra forma de inibi-la. Do contrário, seguiremos assistindo a sua prática em estádios e guerras, assim como a sua negação. Todo dia se vê alguém autodenominar-se isento de discriminações ou criticá-las fortemente, porém, ao exortá-las, apontar alguma particularidade discriminativa do outro, ao invés de simplesmente não fazê-lo.

*PSIQUIATRA E PSICANALISTA