quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

TORCIDA GANHA FORÇA POLÍTICA A CADA ELEIÇÃO


ZERO HORA 12 de dezembro de 2013 | N° 17642


VERBA DA TORCIDA


Nunca uma torcida organizada foi tão influente no Estado como a Geral do Grêmio. Capaz de decidir votações no Conselho Deliberativo, o crescimento político da Geral desperta cada vez mais interesse entre postulantes à presidência do clube.

Os dois principais líderes da torcida, Alemão e Bruno Cabeludo, se elegeram conselheiros do Grêmio em setembro – outros 13 membros da organizada também têm cadeira no colegiado. Eles formam o Movimento Grêmio da Torcida (MGT), idealizado por expoentes da Geral que buscam poder de decisão dentro do clube. No último pleito, o grupo definiu a votação para a presidência do Conselho: Milton Camargo só venceu César Pacheco por 13 votos graças ao apoio do MGT.

Atual presidente do Grêmio, Fábio Koff sofreu oposição contumaz da organizada ao se candidatar ao cargo, no fim do ano passado, quando a torcida fez campanha pela reeleição de Paulo Odone. Em 14 de outubro de 2012, antes de um jogo contra o Botafogo, integrantes da Geral impediram que Koff circulasse pelo pátio do Olímpico para interagir com eleitores.

Líderes da organizada contam que a estratégia era segurar o candidato no pórtico de acesso ao estádio, onde provocaram uma troca de socos com apoiadores do futuro presidente. Seis dias depois, na véspera da eleição, cartazes ofensivos contra Koff espalhados pelo entorno do Olímpico acirraram o clima. Bastou o novo presidente assumir para os subsídios repassados à Geral nos tempos de Odone serem cortados.

– Não usamos dinheiro do caixa do Grêmio. Em algumas ocasiões, aproximamos as organizadas de patrocinadores que oferecem ônibus em troca de banners nos veículos – diz o vice-presidente Nestor Hein.

Após trégua, grupos voltaram a se enfrentar

Esse mergulho na política do clube contribuiu para a Geral rachar em dois grupos. Enquanto Alemão se dedicava desde 2005 a uma campanha interna para integrantes da organizada se associarem ao Grêmio – e, dessa forma, fortalecer o grupo votante nas eleições –, o número 2 da torcida, Cristiano Roballo Brum, o Zóio, não queria saber de política e continuava reivindicando ingressos gratuitos da direção.

– A nossa rapaziada, liderada pelo Alemão, nem precisava mais dos ingressos porque a maioria já era sócia. E os nossos conselheiros começaram a enfrentar dificuldades dentro do clube. “Vocês já ganham pilhas de ingressos e vêm reivindicar mais coisas no Conselho?”, diziam. Só que a turma do Zóio, que é um pessoal mais pobre, de vila, não queria pagar mensalidade, queria viver dos ingressos para sempre – conta um membro da Geral.

O ápice da desavença eclodiu na inauguração da Arena, em 8 de dezembro de 2012, quando Zóio comandou uma pancadaria na arquibancada. Em janeiro deste ano, ele invadiu a casa de Alemão – e, três semanas depois, os dois grupos se enfrentaram no entorno do Olímpico, em uma selvageria que terminou com 31 torcedores proibidos de frequentar estádios.

Embora Zóio esteja afastado da organizada, as duas alas da Geral seguem promovendo tumultos. Na noite de 6 de novembro, antes de Grêmio x Atlético-PR, dezenas de torcedores entraram em confronto e destruíram, com garrafadas e pedradas, parte da fachada do Bar Preliminar, onde se reuniam os aliados de Zóio. Uma funcionária do estabelecimento, na época grávida de oito meses, passou mal:

– Quebraram tudo. Eu fiquei em estado de choque, minha pressão baixou muito. E ouvi os caras comentando que aquilo era só o começo.



VERBA DA TORCIDA


ZERO HORA 12 de dezembro de 2013 | N° 17642


PAULO GERMANO


Dinheiro farto para organizada



Na Geral do Grêmio, houve quem deixasse de trabalhar para viver do dinheiro repassado pela administração de Paulo Odone, presidente do clube até o fim do ano passado. As torcidas organizadas receberam R$ 1,1 milhão em 23 meses. Nenhuma foi mais beneficiada do que a Geral, cujos líderes assinaram os recibos espalhados por estas páginas ao buscar dinheiro no Estádio Olímpico.

Entre 19 de janeiro de 2011 e 21 de dezembro de 2012, a direção do Grêmio entregou R$ 1,1 milhão para líderes de torcidas organizadas. Mais de 85% do montante foi para os cofres da Geral, dividida no ano passado em dois grupos que se mantêm em guerra até hoje.

Documentos obtidos por Zero Hora comprovam pela primeira vez que um clube gaúcho abasteceu torcidas com subsídios que, em média, passavam de R$ 45 mil por mês. O dinheiro era suficiente para que alguns expoentes da Geral abdicassem de trabalhar e vivessem à custa do repasse de verbas. Afinal, nunca a direção do Grêmio – comandada na época por Paulo Odone – exigiu qualquer prestação de contas ao entregar dinheiro vivo às torcidas.

– Ao oferecer valores às organizadas, o clube fomenta entre os líderes das torcidas uma disputa pelo dinheiro. E com frequência esses líderes apelam para a violência como forma de impor sua autoridade – afirma o promotor José Francisco Seabra Mendes Júnior, da Promotoria do Torcedor do Ministério Público.

Embora na tesouraria do Grêmio a justificativa para os gastos fosse “despesa de viagem da torcida”, os chefes da organizada tinham liberdade para usar o dinheiro como quisessem. Parte dos recursos, em vez de ser destinada à contratação de ônibus que transportariam torcedores para acompanhar o time fora de Porto Alegre, costumava ser embolsada por líderes da Geral.

– Era a nossa forma de viver. Achávamos justo que uma parte da grana ficasse conosco, até para podermos nos sustentar – assume Cristiano Roballo Brum, o Zóio, 33 anos, que até o ano passado ocupava o posto de número 2 na hierarquia da organizada.

Em entrevista no dia 6 de dezembro, Zóio afirmou que o lucro era partilhado entre dois líderes de cada grupo da Geral: de um lado, Rodrigo Marques Rysdyk (o Alemão, 35 anos, líder maior da torcida) e seu braço direito, Bruno Pisoni Garcia, o Bruno Cabeludo, 31 anos. De outro, o próprio Zóio e seu aliado mais próximo, Rodrigo Furtado Pedroso, o Dicaprio, 32 anos.

Alemão e Bruno, embora admitam que recebiam dinheiro do Grêmio com frequência, negam ter usado para fins pessoais alguma verba do clube (leia entrevista na página 6). Ao consultar documentos referentes à última gestão de Odone na presidência, ZH apurou que R$ 310,4 mil foram repassados às organizadas em 2011 e outros R$ 787,2 mil foram entregues em 2012.

Às vésperas de jogos do Grêmio fora de casa, Alemão se apresentava na Central de Relacionamento do Estádio Olímpico para buscar maços de reais acomodados em envelopes pardos. Antes de deixar o estádio com quantias que podiam variar de R$ 2 mil até R$ 60 mil, ele assinava recibos – nove deles ilustram esta reportagem.

Foi Paulo Odone quem inaugurou no Grêmio a política de entregar dinheiro vivo às torcidas. Nas gestões anteriores, no máximo o próprio clube contratava ônibus para as organizadas se deslocarem. Atualmente, na administração de Fábio Koff – eleito no fim do ano passado sob forte oposição da Geral, que fez campanha pela reeleição de Odone –, o repasse de verbas está cortado.

– Nos parece claro que a distribuição indiscriminada de benefícios estimula a criação de feudos poderosos dentro das torcidas – avalia Nestor Hein, vice-presidente de Koff responsável pelo relacionamento com as organizadas.

Boa parte das excursões da Geral para fora do Estado era planejada por Zóio, que mais tarde se tornaria inimigo público de Alemão – em janeiro deste ano, um mês após a pancadaria entre os dois grupos rivais na inauguração da Arena, Zóio invadiu a casa do adversário, em Canoas, para um acerto de contas à base de socos e cadeiradas.

A Zero Hora, simpatizantes da organizada que viajavam com a torcida garantiram ter pago entre R$ 20 e R$ 40 por um lugar nos ônibus – o preço variava de acordo com a importância do jogo. Seria, portanto, mais uma forma de a Geral lucrar. As vendas de assentos ocorriam no antigo Bar dos Borrachos, na Avenida da Azenha.





ENTREVISTA - “Não era para fazerem o que quisessem com o dinheiro”


Presidente do Grêmio entre 2011 e 2012, período em que as organizadas receberam do clube R$ 1,1 milhão – mais de 85% desse valor foi repassado à Geral –, Paulo Odone diz que preferia dar dinheiro a contratar ônibus para a torcida viajar. O motivo: não envolver o Grêmio em eventuais incidentes nas excursões. Ele admite, no entanto, que recebia denúncias alertando sobre a forma como líderes da Geral usavam os recursos.

Zero Hora – Sobre o dinheiro repassado à Geral do Grêmio durante a sua gestão...

Paulo Odone – (Interrompendo) Não tenho esses dados, não tenho esses números. Não fiz nada além de repetir o que era feito na gestão do Duda (ex-presidente Duda Kroeff, que comandou o Grêmio no biênio anterior).

ZH – Na verdade, o que o senhor manteve em relação à gestão de Duda Kroeff foi a quantidade de ingressos repassada para a Geral. Mas dinheiro vivo na mão dos líderes da torcida, isso não havia antes.

Odone – Olha aqui. Em vez de o Grêmio locar um ônibus para a torcida viajar – e assumir a responsabilidade sobre eventuais danos ao veículo –, preferia que o dinheiro fosse dado a eles (líderes das organizadas), para que a responsabilidade ficasse por conta deles. Então, essa diferença é um detalhe. Não vou concordar com a informação de que eu dava dinheiro e o outro (Duda Kroeff) não dava. A questão é a seguinte: a gestão anterior dava condições para a torcida viajar ou não?

ZH – A questão é que nem todo o dinheiro repassado à Geral pela sua gestão era investido nas viagens. O senhor sabia que líderes da torcida embolsavam parte dos recursos?

Odone – Não era para eles fazerem o que quisessem com o dinheiro. Às vezes, me diziam: “Olha, os caras pegaram o dinheiro dos ônibus e não usaram”. Mas é a mesma coisa com viagem de avião. Uma vez, (os líderes da organizada) me pediram dinheiro para oito caras irem a Minas Gerais, em uma semifinal que ocorreu lá. Alguém depois veio dizer: “Não foram oito, foram só dois líderes, e o dinheiro de seis (passagens) eles pegaram”. Houve essa acusação.

ZH – E o senhor não se sentia lesado, enganado?

Odone – Isso eram denúncias que chegavam a posteriori. Nunca ninguém me disse “olha, está acontecendo isso” ou “vai acontecer”. Mas, (contratar ônibus para transportar a torcida) em nome do Grêmio, eu não quis mais fazer. Porque houve uma vez em que a polícia parou um ônibus (que transportava a Geral e foi apedrejado) lá em Curitiba. Eu disse: “Não envolvo mais o Grêmio. O Grêmio não aluga mais ônibus”.

ZH – O senhor nunca pensou que esse dinheiro poderia provocar uma disputa interna entre os líderes da torcida?

Odone – Vou dar um exemplo. Quando tem Gre-Nal no estádio do Inter, o Grêmio recebe cortesias (ingressos gratuitos) e repassa para suas organizadas. Quando o Gre-Nal é no estádio do Grêmio, o Inter ganha cortesias e faz a mesma coisa. Eles (líderes da Geral) pediam mil ingressos – e eu não aceitava, eu dava menos, dava 400. O que eles faziam? Eles vendiam parte dos ingressos para pagar a banda que toca com a torcida. Não sei se tu sabes, mas os caras que tocam instrumentos cobram dinheiro, tanto nas torcidas do Inter quanto nas do Grêmio.

ZH – Então o senhor sabia, ao dar ingressos para a Geral, que eles vendiam parte dos bilhetes?

Odone – Quando dava bronca, eles diziam: “Pô, mas nós temos que pagar a banda”. Eu dizia: “Mas como assim?” E isso sempre ocorreu na gestão anterior (de Duda Kroeff) também. Por isso que ocorrem essas brigas. Na inauguração da Arena, eles brigaram com os caras da banda. (Zero Hora apurou que a briga ocorreu entre os dois grupos rivais da Geral; um liderado por Alemão, outro por Zóio). Foi uma briga interna deles.

ZH – Mas, fora esses valores dos ingressos vendidos, eles recebiam da sua gestão dinheiro vivo.

Odone – Mas acho que isso, de darmos dinheiro e eles não usarem (na contratação dos ônibus), ocorreu muito poucas vezes. Eles (líderes da Geral) nos apresentavam os valores dos ônibus para viajar, e a gente pesquisava preços menores. Acabávamos dando metade do que eles pediam. Sempre foi feito isso.

ZH – Mas o senhor sabia que havia brigas internas por causa do acesso ao dinheiro?

Odone – Briga acontece por tudo. Disputa de poder, de liderança, de tudo. Pelo amor de Deus, faz uma matéria completa. Mergulha lá dentro que tu vais ver.

ZH – Mergulhamos. Dinheiro representa poder e liderança.

Odone – Se eles ficaram com algum dinheiro, foi muito pouco. Porque ninguém dava dinheiro a rodo para eles comprarem as coisas.

ZH – Acha que R$ 1,1 milhão em dois anos é pouco?

Odone – Tu estás trazendo um número que eu não conheço. Queres que eu me meta lá dentro, na direção do Grêmio, para olhar? Os caras (da atual gestão, do presidente Fábio Koff) me acusam de tanta coisa, e eu vou lá olhar isso? Entrevista o contador do Grêmio.

ZH – Mas a contabilidade do Grêmio vai mostrar R$ 1,1 milhão em dois anos.

Odone – Não sei dessas coisas! Eu tinha que me preocupar com o macro do Grêmio e com o esporte. Já chega o que a gente se incomoda com esse troço de torcida. Agora vou fiscalizar se o cara desviou 200 pilas, 200 mil, 600 mil? E tu dizes: “Foi R$ 1,1 milhão, presidente”. Porra, eu passei 10 anos tirando o Grêmio do buraco! Eu não conheço esses números.



ENTREVISTA - “Me sustento com trabalhos temporários”


Rodrigo Rysdyk, líder da Geral conhecido como Alemão (à direita na foto), reconheceu sua assinatura nos recibos do Grêmio que comprovam o repasse de verbas à organizada durante a gestão Odone. Garantiu, no entanto, jamais ter embolsado parte do dinheiro. Acompanhado de Ney Martins Neto – que, como ele, é conselheiro do clube, além de membro da Geral –, Alemão comentou os confrontos com o grupo de Zóio (à esquerda).

Zero Hora – Todo o dinheiro que a Geral recebia da gestão Paulo Odone era investido nas viagens?

Rodrigo Rysdyk, o Alemão – Sim, óbvio.

Ney Martins Neto – Se sobrasse alguma coisa, a gente comprava cerveja, lanche. Ou deixava no caixa da torcida, mandava fazer material, arrumava uma bandeira.

ZH – Como você se sustenta?

Alemão – Trabalhei desde pequeno na empresa do meu avô: separava e carregava sucata o dia todo. Até que, em 2004, um assaltante entrou lá e matou meu avô. Os amigos que fiz na torcida nunca me deixaram na mão. Me ajudaram com um bico aqui, um trampo ali, até com dinheiro. Me sustento com trabalhos temporários.

ZH – Zóio afirma que o dinheiro que sobrava das viagens era dividido entre quatro líderes: você, Bruno Cabeludo, Dicaprio e o próprio Zóio.

Alemão – É mentira, não tem como fazer isso. Eu seria afastado da torcida. Se ele (Zóio) fez isso, então foi má-fé dele, não minha. Eu sempre fiz o correto.

ZH – Não foi por dinheiro a briga entre vocês?

Alemão – Se houve disputa por dinheiro, foi por parte deles. Da minha parte, nunca houve.

ZH – O que faziam com o dinheiro dos ingressos que a direção dava e vocês vendiam?

Alemão – Quando o clube não nos dava subsídio para viagens, usávamos para acompanhar o Grêmio. Parte do dinheiro era para confeccionar materiais e gerar um fluxo de caixa para manter a torcida. A direção sabia.

ZH – Nas viagens, vocês faturavam vendendo lugares para torcedores dentro dos ônibus?

Alemão – A gente cobrava um valor simbólico, uns R$ 20, para o cara não faltar. Porque, se ele botasse o nome na lista e faltasse, tirava o lugar de outro. Precisávamos encaminhar a lista com antecedência para a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Mas, no fim das contas, todo mundo entrava sem pagar.

ZH – Por que vocês exigem dinheiro do clube?

Alemão – O Grêmio usa a imagem da torcida. Fotos da Geral estampam produtos, como cadernos. A campanha para associar torcedores, passando de 3 mil para 40 mil sócios, foi a torcida que fez. A receita do Grêmio aumentou. Gastos com torcida têm retorno para o clube.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

BRASILEIRO CULPA TORCIDAS ORGANIZADAS POR VIOLÊNCIA NO FUTEBOL


Pesquisa mostra que brasileiro culpa torcidas organizadas por violência no futebol. Dos mais de 8 mil entrevistados, 84,5% apontam as uniformizadas como responsáveis por casos. Em segundo aparece o poder público/segurança pública, com 8,4%. Entrevistas foram realizadas em novembro, antes do confronto entre torcedores do Atlético-PR e Vasco

O GLOBO
Atualizado:10/12/13 - 20h09




RIO - A violência nos estádios de futebol não é um assunto novo no Brasil. Antes do confronto entre torcedores do Atlético-PR e Vasco, em Joinville, a Stochos Sports & Entertaiment realizou pesquisa sobre o tema. Nela, 84,5% dos entrevistados apontam as torcida organizadas como responsáveis pela violência no futebol. Em segundo lugar, com 8,4% aparece o poder público/segurança pública. A pesquisa foi realizada em novembro e ouviu 8.112 entrevistados, entre torcedores de 16 e mais de 60 anos. A margem de erro é de 1,1%.

Para o advogado especialista em Direito Desportivo e Secretário da Comissão de Direito Desportivo da OAB, Eduardo Carlezzo, só punições aos envolvidas em brigas em estádios de futebol poderá mudar o atual cenário.

- Embora o Estatuto do Torcedor desde 2010 criminalize os atos violentos praticados por torcedores dentro dos estádios, está claro que isto não está surtindo efeito e que a violência não está diminuindo. Creio que dois motivos são fundamentais: amenidade das penas e falta de fiscalização e articulação entre polícia e judiciário. Precisamos urgentemente de endurecimento das penas e planos de segurança para o combate da violência por parte dos órgãos públicos - afirmou Carlezzo.

Entre os torcedores cariocas, a porcentagem de pessoas que culpam as torcidas organizadas é menor do que a média nacional. Entre os torcedores do Botafogo, 82,5% culpam as organizadas. O número é de 81,% entre os vascaínos, 81,1% entre os rubro-negros e 78,4% entre os tricolores. Na torcida do Atlético-PR, 82,3% apontam para as torcidas organizadas como principais culpadas. O líder do ranking é o Atlético-MG, com 89,4%.

ARENAS DA BARBÁRIE


FOLHA.COM 11/12/2013 - 03h30


Editorial




Só a firme e tempestiva punição a episódios de violência nos estádios será capaz de evitar que o país assista a novas barbáries em praças esportivas, tais como a protagonizada por torcedores de Atlético-PR e Vasco, em Joinville (SC).

Ainda que seja um bom primeiro passo o Ministério Público do Paraná ter decidido, ontem, proibir uma torcida organizada do Atlético-PR de frequentar estádios brasileiros pelo prazo de seis meses, a iniciativa é muito tímida.

Salvo três vascaínos detidos, os delinquentes que participaram da confusão --facilmente identificáveis pelas numerosas imagens disponíveis-- continuam impunes. Poderão voltar às arenas na primeira oportunidade, desde que não vistam camisa da organizada.

A necessidade de punir os vândalos de forma individual não escapou a Cidinei Batista da Silva, cujo filho, William, envolveu-se na briga e teve o crânio fraturado. "Mesmo sendo vítima, ele estava no meio daquilo tudo. (...) Se fez algo errado, vai responder por isso", declarou o pai.

Em relação à selvageria de domingo, é preciso ir além. Autoridades públicas e dirigentes esportivos também precisam ter suas responsabilidades apuradas. Já se sabe, por exemplo, que a troca de hostilidades entre as torcidas foi favorecida pela inexistência de policiamento militar no local do jogo.

Cerca de 90 agentes de segurança contratados pela diretoria do Atlético-PR --mandante da partida-- ficaram incumbidos de zelar pela integridade física dos 8.978 torcedores pagantes da disputa.

Não foi o suficiente, como se viu. As cenas brutais do confronto foram amplamente divulgadas na imprensa internacional como demonstração da falta de segurança nas praças esportivas do país-sede da Copa do Mundo de 2014.

Na década de 1980, Bill Buford, jornalista americano, imergiu no universo dos hooligans britânicos. De sua experiência resultou o livro "Entre os Vândalos", no qual afirma que a violência apresenta-se à massa de torcedores como um caminho extremamente sedutor.

Apesar da conclusão desoladora, o Reino Unido conseguiu reprimir, na década de 1990, a barbárie nos estádios. Para tanto, foram fundamentais a responsabilização penal dos envolvidos em brigas generalizadas e o seu banimento dos locais de jogos.

Sem que se feche o cerco aos irresponsáveis, não há como dar fim à violência. O Brasil precisa aprender essa lição a tempo de evitar tragédia de maiores proporções.

HORA DO BASTA



Remédio contra a violência já existe: é a lei federal 10.671, mais conhecida como Estatuto do Torcedor, aprovada em 2003. Nela estão previstas normas detalhadas

FLAVIO ZVEITER
O GLOBO. Publicado:10/12/13 - 0h00



Em 2013, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu com perda de mando de campo mais de 30 clubes que disputaram as séries A, B, C e D do campeonato brasileiro, promovido pela CBF. A perda de mando é a pena mais grave prevista contra os clubes condenados em consequência de atos violentos ou desordens cometidas por torcidas dentro dos estádios.

A estatística recorde de sanções disciplinares impostas pelo STJD é o retrato de uma situação vergonhosa. O futebol brasileiro já foi sinônimo de arte e alegria; agora é associado a violência, selvageria, pânico, sangue...

No que compete ao STJD, que zela pelo cumprimento do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, estamos agindo com rigor. Mas, infelizmente, a Justiça Desportiva atua como uma espécie de UTI, no fim de um processo infeccioso. Para que seja debelada a contaminação dos campeonatos pelo vírus da violência precisa haver sobretudo prevenção.

O remédio contra a violência já existe: é a lei federal 10.671, mais conhecida como Estatuto do Torcedor, aprovada em 2003. Nela estão previstas normas detalhadas para espetáculos esportivos civilizados. Se todos os órgãos públicos e entidades esportivas cumprirem o Estatuto, o mal da violência nos estádios será cortado pela raiz.

O Estatuto do Torcedor pune infrações cíveis e criminais cometidas num raio de até cinco quilômetros em torno e dentro do local dos eventos. Compete ao STJD aplicar o Código Brasileiro de Justiça Desportiva com penas específicas em relação aos organizadores e participantes do jogo, como confederação, federações, clubes, atletas e árbitros.

Temos consciência de que o STJD também é ator importante no combate à desordem e à violência. Temos sido céleres e rigorosos nos processos disciplinares, aplicando multas e mandos de campo em volume inusitado. Nossa ação já obrigou alguns clubes mais responsáveis a tomarem iniciativas corretivas.

Acatando nossas recomendações, a CBF acaba de aprovar para 2014 um Regulamento Geral das Competições (RGC), com previsão de pena de mando de campo mais rigorosa. A partir de agora, a perda de mando pode ocorrer com portões fechados, sem torcida.

Os fatos repetidamente comprovam que os maiores responsáveis pelos atos violentos são integrantes de torcidas organizadas. São marginais, bandidos que tumultuam os jogos e colocam em risco as vidas de pessoas. A prevenção e repressão, segundo a lei vigente, compete principalmente aos órgãos policiais, ao MP, ao Poder Judiciário e aos clubes.

Os casos de violência deixaram de acontecer no Rio de Janeiro basicamente por duas razões: nos estádios funcionam juizados especiais criminais, permitindo a condenação imediata do torcedor violento; e a PM tem um batalhão especializado para atuação nos grandes eventos.

Esse exemplo deveria ser seguido em todos os estados brasileiros, exigindo uma articulação nacional, capitaneada pelo governo federal, com participação do Conselho Nacional do Ministério Público e do CNJ.

A barbárie que ocorreu no último jogo da série A do campeonato brasileiro de 2013, entre Vasco e Atlético Paranaense, pode ser o ponto de partida para um basta definitivo.



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Sim, "remédio contra a violência já existe", mas não se pode esquecer que a "lei federal 10.671, mais conhecida como Estatuto do Torcedor" de 2003, onde estão "previstas normas detalhadas", são como a outras leis "rigorosas" no Brasil, ineficazes, inoperantes e inaplicáveis. No Brasil, criam-se facilmente leis nas crises e no imediatismo, sem observar as benevolências previstas pela constituição e a falta de sistema, estruturas, recursos, harmonia entre poderes, comprometimento com o interesse público e vontade política em executar e aplicar estas leis. É o que ocorre com o Estatuto do Torcedor de 2003, transformado num analgésico de efeito transitório em que o uso abusivo (ou não uso adequado) pode provocar efeitos colaterais, o que já está ocorrendo ao estimular a impunidade.

A BARBÁRIE QUE SE REPETE


Vai explicar como aqui é possível realizar jogos de futebol decisivos sem a presença da polícia. E que se pode entrar no estádio com uma barra de ferro com prego na ponta

ZUENIR VENTURA
O GLOBO Publicado:11/12/13 - 0h00



No momento em que corre o mundo o exemplo de Nelson Mandela, revelando até onde pode ir a grandeza humana — a tolerância, a capacidade de perdoar, o espírito pacifista —, é justamente nesse momento que o Brasil resolveu exportar o oposto do que o líder sul-africano pregou. As imagens do que se passou aqui, domingo, num estádio de futebol, constituem uma pequena mostra do que de pior é capaz o gênero humano: a violência selvagem, o fanatismo, a barbárie, a covardia. A imprensa estrangeira, com espanto, não escondeu a preocupação com o que pode acontecer daqui a seis meses. Só faltou repetir o bordão com que há algum tempo expressamos nossa incerteza e pessimismo: “Já imaginou na Copa!” Se nada for feito, o espetáculo que transformou a arquibancada da Arena Joinville num octógono de MMA, com vários lutadores se agredindo durante mais de uma hora, vai se repetir.

Pena que aquele show de fúria assassina tivesse acontecido numa cidade que chama a atenção pela qualidade de vida e pela civilidade de seu povo, ostentando um alto IDH — entre 2000 e 2010, o indicador que mais cresceu foi o da educação. Vai explicar como aqui é possível realizar jogos de futebol decisivos sem a presença da polícia. E que se pode entrar no estádio com uma barra de ferro com prego na ponta, como fez um dos trogloditas que aparece espancando alguém caído no chão desacordado, sem falar em outro absurdo, o de que apenas três dos envolvidos nos vários conflitos acabaram detidos.

De quem a culpa? A PM alega que é do Ministério Público, que teria proibido a presença de policiais na Arena. Já o promotor Francisco de Paula Fernandes Neto disse que houve “erro de interpretação” e que a responsabilidade é de quem organiza, portanto, do Atlético-PR, que, por sua vez, acusou a empresa de segurança contratada, a qual disse ter advertido o clube para a insuficiência do número solicitado de 20 homens. Ou seja, um empurra-empurra em que cada um teve a sua parte.

Pela repercussão que ganhou, graças às contundentes imagens, o vale-tudo de Joinville mobilizou o governo que, da presidente ao ministro do Esporte, passou a exigir um basta para essa antiga praga do futebol. Legislação prevendo punição não falta, falta cumpri-la. Por exemplo: um dos três vascaínos presos agora é o mesmo que, acusado em 2007 da morte de um torcedor do Flamengo, ficou três meses na cadeia, mas escapou da condenação. Como afirma o comandante do Grupamento Especial de Policiamento de Estádios do Rio, João Fiorentini, “o clube é que dá o ingresso para o torcedor violento ir aos estádios”. O que os cartolas têm a dizer sobre a repetição dessas cenas de barbárie e a reincidência dos que as praticam?

FUTEBOL SOFRE A MAIOR TRAIÇÃO, A VIOLÊNCIA


JORNAL DO COMÉRCIO 11/12/2013


Alexandro Correa Lopes


O campeonato brasileiro de futebol encerrou-se neste domingo com um episódio preocupante – a violência sistemática dentro e fora dos estádios de futebol. Isso é algo de enorme gravidade, posto que revela a inação do poder público quanto a uma das prerrogativas fundamentais do cidadão em um Estado de Direito, a segurança pública. Outro aspecto que deve ser apontado é a ausência de comunicação ou interligação entre os entes do poder público, responsáveis por esse dever constitucional.

A Constituição Federal dispõe, em seu artigo 144, que “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: V – policiais militares e corpos de bombeiros militares”. Aqui, em especial, trata-se da obrigação de prestar um serviço essencial à sociedade, no sentido de praticar policiamento ostensivo e preservar a ordem pública, além de executar atividades de defesa civil, sem qualquer distinção ou determinação de lugar ou destinatário do serviço. Vale relembrar um debate originado há poucas semanas, a respeito de uma pretensa cobrança, por parte da Brigada Militar perante os clubes de futebol da Capital, para estar presente nas arenas de disputas, sob o pretexto de qualificar as partidas de futebol como evento privado.

É primordial desmistificar essa premissa para não chegarmos a uma conclusão equivocada. Evento público ou privado não se concebe pela cobrança do ingresso, todavia, pela especificidade dos seus participantes. Isso é, um evento esportivo é classificado como público, pois qualquer pessoa que tenha um ingresso (pago ou não) pode ser participante, enquanto um evento privado está investido do critério seletivo dos seus convidados, como uma celebração de casamento, uma colação de grau, um festival de cinema etc. Portanto, a única razão apresentada pelos referidos entes públicos na mídia não é argumento suficiente para isentar o Estado como maior responsável, por meio dos seus diversos escalões, por este fenômeno lastimável que presenciamos há anos.

Advogado e consultor desportivo