terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DRIBLANDO A POLÍCIA

REVISTA VEJA 10/12/2013 - 18:33

SELVAGERIA. Torcidas organizadas driblam a polícia: até agora, só há três presos pela tragédia. Mesmo com a fartura de imagens da pancadaria na Arena Joinvile, policiais têm dificuldade de chegar aos responsáveis pela briga no último jogo do Brasileirão

Pâmela Oliveira, do Rio de Janeiro



Briga de torcedores durante partida entre Atletico PR x Vasco, válida pela última rodada do Campeonato Brasileiro, realizada no Arena Joinville (Joka Madruga/Futura Press)

É comum a polícia se valer de câmeras de segurança para obter pistas de autores de crimes. Uma imagem vale muito, quando a investigação começa no escuro. No caso da selvageria na Arena Joinville, na última rodada do Campeonato Brasileiro 2013, havia várias à disposição: a partida entre Atlético-PR e Vasco foi filmada em alta resolução, pela Rede Globo, e transmitida ao vivo, em vários ângulos, para todo o país. Além do vídeo, dezenas de fotógrafos estavam espalhados pelo gramado. Mas, todo esse material, que flagrou em detalhes os rostos dos brigões que, disfarçados de torcedores, promoveram um duelo nas arquibancadas e deixaram quatro feridos em estado grave, parece não ter ajudado muito. Tudo o que se tem, até o momento, é uma “troca de informações” sem muita precisão entre as polícias de Santa Catarina, do Paraná e do Rio de Janeiro, e só foram presos os três criminosos infiltrados na torcida do Vasco da Gama.

A maior parte das identificações dos envolvidos partiu da imprensa. O site de VEJA obteve, com auxílio de integrantes e ex-integrantes de torcidas organizadas, a confirmação de que os chefes da Força Jovem do Vasco comandaram a pancadaria em Joinville. Vários deles ainda comemoraram, no Facebook, seu “desempenho” na briga.

Estão presos em Joinville Leone Mendes da Silva, Jonathan Fernandes dos Santos e Arthur Barcelos Lima Ferreira. Estão identificados, mas soltos Philipe Sampaio, Naíba, Marcelo Souza, Bruno Fet, Sadraque Gomes e Victor Vital. A reportagem do site de VEJA solicitou à Polícia Civil do Rio informações sobre a situação desses torcedores. As investigações, no entanto, correm em sigilo.

O Núcleo de Apoio a Grandes Eventos (Nage) da Polícia Civil do Rio de Janeiro enviou documentos para a polícia de Joinville, responsável pelas investigações da briga entre torcedores durante a última rodada do Campeonato Brasileiro, no domingo. Entre o material enviado estão as identificações de torcedores envolvidos no confronto que terminou com quatro feridos e três presos.

"Temos um acervo de dados sobre torcedores de organizadas aqui do Rio. Tenho falado com o delegado que está a cargo das investigações no Sul e já enviei tudo o que temos. Nos colocamos também à disposição para eventuais diligências que precisem ser feitas aqui no Rio, já que parte dos que estavam envolvidos no tumulto são daqui", afirmou o delegado da Delegacia de Apoio ao Turismo (Deat) e responsável pelo Nage, Alexandre Braga, que se recusou a revelar detalhes sobre as informações disponibilizadas.

Nesta terça-feira, o delegado Regional de Joinville, Dirceu Silveira Júnior, instaurou inquérito para apurar a participação dos torcedores que não foram presos em flagrante. Dirceu tem recebido informações das polícias do Rio e de Curitiba, mas se recusa a revelar números de brigões identificados. “Ouvimos mais de 20 pessoas, entre vítimas, torcedores e testemunhas. Nossa inteligência está analisando as imagens de vídeo e fotografias para identificar a atuação de cada um dos envolvidos e fazer as identificações”, disse ao site de VEJA.

Questionado se a prisão de apenas três pessoas durante a briga que envolveu pelo menos 50, o delegado disse que não. Perdida a oportunidade de prender os brigões dentro ou na saída do estádio, a polícia agora pede ajuda da população. Criou um e-mail para receber denúncias sobre os brigões (denunciajogojoinville@pc.sc.gov.br).

Segundo Dirceu, os procedimentos de prisão em flagrante dos três vascaínos presos em flagrante – Jonathan, Leone e Arthur – foram enviados para a 1º Câmara da Comarca de Joinville. Os três continuam presos.

Organizadas – Nesta terça-feira, a torcida organizada Os Fanáticos, do Atlético-PR, assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público se comprometendo a ficar longe dos estádios por seis meses. O acordo, no entanto, não afastará os torcedores brigões dos estádios brasileiros. Segundo o promotor Maximiliano Deliberador, do Ministério Público do Paraná, o acordo proíbe a entrada de torcedores com camisas, bandeiras, faixas e instrumentos musicais com identificação da torcida, mas não impede que membros da organizada se reúnam nos estádios.

“No Brasil, não é feita a identificação dos torcedores nos estádios. Não se apresenta identificação. Então, é impossível proibir a entrada de determinado torcedor. Seria uma medida inócua proibir a entrada de torcedores específicos. Na prática, a assinatura do TAC tem como objetivo desestimular a reunião dos integrantes da torcida organizada ‘Os Fanáticos’, mas não impedirá que eles frequentem os estádios, combinem pontos de encontro ou cantem as músicas das torcidas”, admite Maximiliano.

No Rio, o Ministério Público entrará com uma Ação Civil Pública pedindo o afastamento da Força Jovem do Vasco dos estádios por três anos. A ação, assinada pelo promotor de Justiça Paulo Sally, pedirá que a torcida organizada seja proibida de cadastrar novos associados e de vender camisas e faixas ou qualquer material promocional por três anos. O promotor pediu a pena máxima prevista no estatuto do torcedor porque a organizada já descumpriu dois Termos de Ajustamento de Conduta.

A página de Naíba no Facebook: torcedor da Força Jovem do Vasco usava uma bermuda azul e foi filmado agredindo torcedores do Atlético-PR
A página de Naíba no Facebook: torcedor da Força Jovem do Vasco usava uma bermuda azul e foi filmado agredindo torcedores do Atlético-PR - Reprodução


No Facebook, torcedores comemoram a chegada ao Rio. Em destaque, Sadarque, Naíba e Victor Vital, que foram filmados trocando agressões em Joinville
No Facebook, torcedores comemoram a chegada ao Rio. Em destaque, Sadarque, Naíba e Victor Vital, que foram filmados trocando agressões em Joinville - Reprodução


Naíba - de bermuda azul - puxa um torcedor rival e troca socos durante a pancadaria na Arena Joinville. Bruno Fet, de camisa branca com listras pretas, parte para a briga
NNaíba - de bermuda azul - puxa um torcedor rival e troca socos durante a pancadaria na Arena Joinville. Bruno Fet, de camisa branca com listras pretas, parte para a briga - Reprodução

Jonathan Fernandes e Philipe Sampaio, em destaque: briga também no Estádo Mané Garrincha, em partida contra o Corinthians, em 25 de agosto
Jonathan Fernandes e Philipe Sampaio, em destaque: briga também no Estádo Mané Garrincha, em partida contra o Corinthians, em 25 de agosto - Sergio Lima/Folhapress

Philipe Sampaio na briga com torcedores do Atlético-PR, em Joinville
Philipe Sampaio na briga com torcedores do Atlético-PR, em Joinville - Reprodução

Foto do Facebook de Philipe Sampaio: vascaíno estava na briga com torcedores do Corinthians em Brasília, em agosto
Foto do Facebook de Philipe Sampaio: vascaíno estava na briga com torcedores do Corinthians em Brasília, em agosto - Reprodução

Jonathan Fernandes, de camisa branca, pisa em um torcedor do Atlético-PR; à esquerda, o homem identificado como Pierre, líder da torcida Ira Jovem
Jonathan Fernandes, de camisa branca, pisa em um torcedor do Atlético-PR; à esquerda, o homem identificado como Pierre, líder da torcida Ira Jovem - Reprodução

Jonathan Fernandes, um dos torcedores do Vasco presos depois da pancadaria em Joinville, também estava na briga com torcedores do Corinthians em Brasília, em agosto
Jonathan Fernandes, um dos torcedores do Vasco presos depois da pancadaria em Joinville, também estava na briga com torcedores do Corinthians em Brasília, em agosto - Reprodução

Sadraque Gomes, integrante da torcida do Vasco envolvido na pancadaria em Joinville
Sadraque Gomes, integrante da torcida do Vasco envolvido na pancadaria em Joinville - Reprodução

Leone Mendes da Silva, conhecido como Curirim, mora na Baixada Fluminense: preso em Joinville
Leone Mendes da Silva, conhecido como Curirim, mora na Baixada Fluminense: preso em Joinville - Giuliano Gomes/Folhapress

O Facebook de Marcelo Souza, torcedor do Vasco da Gama
O Facebook de Marcelo Souza, torcedor do Vasco da Gama - Reprodução

Torcedores do Vasco e Atlético Paranaense brigam durante a partida em Santa Catarina: Marcelo Souza, em destaque
Torcedores do Vasco e Atlético Paranaense brigam durante a partida em Santa Catarina: Marcelo Souza, em destaque - Heuler Andrey/AFP

Mensagem deixada na página de Marcelo Souza, elogiando a atuação na briga em Joinville
Mensagem deixada na página de Marcelo Souza, elogiando a atuação na briga em Joinville - Reprodução

Mensagem escrita no Facebook por Victor Vital: comemoração da atuação dos vascaínos na pancadaria
Mensagem escrita no Facebook por Victor Vital: comemoração da atuação dos vascaínos na pancadaria - Reprodução


O QUE O PODER PÚBLICO NÃO ENXERGA

PARA LEMBRAR....

Redação Superesportes - Diario de Pernambuco
16/04/2013 09:15




Mesmo proibidas, torcidas organizadas estão nos jogos e, muitas vezes, nem um pouco discretas


No dia 20 de fevereiro de 2013, o juiz titular do Juizado Especial do Torcedor (Jetep), José Raimundo dos Santos Costa, determinou, em sentença favorável ao pedido de ação impetrada pela Federação Pernambucana de Futebol (FPF), que as facções organizadas Fanáutico, Inferno Coral e Torcida Jovem estariam proibidas de se reunirem “no entorno dos estádios de futebol e de adentrarem nas arenas esportivas nos dias de jogos”. Abalada com a violência no futebol, a sociedade viu na decisão do Juizado do Torcedor uma vitória na luta contra a impunidade. Desrespeitando a decisão judicial e escancarando a fragilidade do poder público, as organizadas, entretanto, nunca deixaram de frequentar os estádios.

Poucas semanas depois do episódio que vitimou o jovem Lucas Lyra, as facções se fizeram presentes nos jogos de seus respectivos times. De forma disfarçada, porém marcando presença. Faixas com o slogan da facção nas mesmas cores e fazendo os mesmos gestos, ou seus integrantes reunidos no mesmo local em que sempre estiveram em seus estádios. São alguns dos exemplos perceptíveis a qualquer torcedor que é acostumado a ir a um jogo de futebol. No último domingo (14), a facção rubro-negra Torcida Jovem, em sua página no Facebook, conclamou os leoninos a se reunirem na Ilha do Retiro, de onde saíram em caminhada para o estádio do Arruda, onde Santa Cruz e Sport realizaram o clássico das multidões.

Durante o trajeto, mesmo sem camisas que os identificava como torcida organizada, cânticos e gritos de guerra da facção podiam ser ouvidos, além dos gestos alusivos à facção. Parte do cortejo foi acompanhado pela Polícia Militar, que escoltava os torcedores. O coronel Gilmar de Araújo Oliveira, comandante do Policiamento da Capital, afirmou ao Diario que a PM apenas disciplinou os torcedores que se deslocavam ao Arruda, alegando que não se tratava de membros da organizada rubro-negra. “Identificamos, através das câmeras de segurança, várias pessoas se dirigindo pela avenida Agamenon Magalhães e o que fizemos foi o balizamento dos torcedores até o estádio, para garantir o fluxo do trânsito”, explicou. “Nós estamos trabalhando para que tudo transcorra dentro da paz social”, enfatizou.

O juiz José Raimundo lamenta o fato de sua decisão não vir sendo cumprida em sua integralidade. “Na reunião que tive com os comandantes da Polícia Militar, deixei claro que independentemente do uso ou não de camisas, os torcedores que se manifestassem em aglomeração e fizessem referência às torcidas, entoando cânticos ou hinos de guerra por exemplo, deveriam ser enquadradas de acordo com a determinação judicial”, esclareceu o magistrado. “Cabe à Polícia Militar mapear as áreas e fiscalizar. Sei que é uma questão complexa e entendo a dificuldade. Porém, é algo que diz respeito mais à Polícia do que à Justiça. A lei e a decisão judicial existem, elas precisam ser cumpridas”, concluiu.

VIOLÊNCIA E IMPUNIDADE NOS ESTÁDIOS


ZERO HORA 10 de dezembro de 2013 | N° 17640

ARTIGOS

José Francisco Seabra Mendes Júnior*



O Estatuto de Defesa do Torcedor surgiu há 10 anos com a finalidade de pôr fim às brigas nos estádios. Porém, os recorrentes episódios de violência nas praças esportivas de todo o país evidenciam que os esforços despendidos até o momento têm se revelado insuficientes para eliminar essa verdadeira chaga social. Preocupado com isto, em setembro deste ano, o Ministério Público gaúcho instituiu a Promotoria Especializada do Torcedor, que nesta primeira etapa do trabalho interagiu com clubes, federação, autoridades de segurança, lideranças de torcidas organizadas, buscando soluções para a escalada da violência nos estádios gaúchos.

Ao final desses primeiros meses de atuação, chegamos a algumas constatações. Não é com a mera edição de uma lei que se soluciona uma questão complexa como a da violência, que, aliás, não tem imperado apenas nos estádios, mas em todos os segmentos da sociedade brasileira. Aliás, o próprio Estatuto do Torcedor, mesmo em vigor há mais de uma década e já reformado no ano de 2010, ainda necessita de regulamentação pelo Ministério dos Esportes, o que faz com que muitos de seus dispositivos sejam de difícil aplicação, como o relacionado ao cadastramento das torcidas organizadas, e também a restrição de acesso ao estádio de torcedores suspensos, que poderia ser mais eficaz caso a lei exigisse a instalação de controle biométrico em todas as praças de esporte profissional.

Urge, pois, que a sociedade estabeleça um amplo debate nacional sobre algumas questões diretamente relacionadas com a violência no esporte, principalmente no futebol. A relação dos clubes com suas torcidas deve ser reavaliada, visto que os subsídios alcançados acabam fomentando disputas internas de poder entre as lideranças das organizadas. A impunidade deve, também, ser banida dos gramados pátrios, sendo que os dispositivos que preveem a suspensão do direito de acesso aos estádios devem ser aplicados com rigor e principalmente fiscalizados com atenção, a fim de que torcedores suspensos não ingressem nos espetáculos esportivos durante o período de vigência de sua suspensão.

Além disso, deve-se destacar que a segurança do torcedor no recinto esportivo é responsabilidade do clube detentor do mando de campo, mas a própria lei prevê que os dirigentes das entidades esportivas podem solicitar à força pública que realize o policiamento dentro e fora dos estádios. Como tem sido noticiado, há um forte movimento aqui no Estado no sentido de retirar a Brigada Militar de dentro dos estádios, por alegadamente se tratar de eventos em estádios privados. Porém, não há como ignorar a singularidade do evento futebol, que é uma paixão nacional, e que, portanto, deve ser tratado de forma diferenciada. A respeito, a Promotoria do Torcedor, desde o início desse debate público, tem sustentado, tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, que não há como realizar de forma segura partidas oficiais de futebol nos estádios do Rio Grande do Sul sem policiamento interno.

Aliás, foi graças ao trabalho da Brigada Militar que apenas nestes três primeiros meses de atuação, a Promotoria do Torcedor já afastou mais de 40 maus torcedores dos estádios gaúchos. Assim, a sociedade brasileira está diante de mais um grande desafio. Não podemos permitir que a violência e a impunidade sigam afastando os verdadeiros torcedores dos estádios. A prevenção da violência nos esportes é responsabilidade de todos nós.


*PROMOTOR DE JUSTIÇA

INÉPCIA E DESCASO EM JOGO

O Estado de S.Paulo 10 de dezembro de 2013 | 2h 06

OPINIÃO


Os cariocas Gabriel Ferreira e Diogo Cordeiro, ambos de 29 anos; e os paranaenses Estevão Viana, de 24, e William Batista, de 19, este com o crânio fraturado, sobreviveram por pouco de uma briga na Arena Joinville, domingo. Nenhum deles foi vítima inocente do conflito entre torcedores do Vasco da Gama, do Rio, e do Atlético Paranaense na última rodada da série A do Campeonato Brasileiro de Futebol. Afinal, eles atravessaram todo o espaço vazio que separava as torcidas de seus times para evitar conflitos e partiram em direção aos adversários como uma tribo de bárbaros atacando seus piores inimigos. O resultado foi mais um espetáculo de selvageria. Mas os quatro personagens não são os únicos responsáveis pela briga que os levou ao hospital.

O clube de Curitiba era o mandante do jogo. Não pôde, porém, realizá-lo em seu próprio estádio por causa de outra briga similar em rodada anterior na capital paranaense. Em obediência à punição decretada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), recebeu os cariocas a mais de 100 quilômetros de sua sede. A diretoria do Atlético foi informada de que, conforme consenso entre o Ministério Público (MP) e a Polícia Militar (PM), sendo o jogo um evento particular, a segurança dos torcedores seria responsabilidade exclusiva do clube anfitrião. Este é que teria de contratar agentes de empresa privada para cuidar da torcida, limitando-se a PM a garantir a integridade física das estrelas do espetáculo: jogadores, árbitros e outros profissionais com acesso ao gramado. Foi providenciada extensa área sem torcedores para evitar choque entre rivais numa disputa nervosíssima, em que o mandante disputava vaga na Libertadores e o visitante tentaria evitar o rebaixamento para a série B.

Numa medida de economia desproporcional aos lucros obtidos pelos clubes em bilheteria de jogos, publicidade e, sobretudo, direitos de transmissão, apenas seis - três de um lado e três de outro - agentes de segurança foram encarregados de evitar que uma torcida agredisse a outra. Bastaram 17 minutos de bola rolando para que ocorresse a briga, com chutes na cabeça de rivais e o emprego de barras de ferro arrancadas do estádio. O jogo foi interrompido e os policiais tiveram de intervir para evitar mortes e transportar os feridos da batalha em helicópteros para o hospital.

O MP divulgou nota oficial garantindo que nada tinha a ver com a decisão da polícia de restringir seu trabalho ao gramado. E o comandante do 8.º Batalhão da PM de Joinville, coronel Adilson Moreira, filosofou: "Estava tudo dentro da normalidade, mas isso (a briga) já ocorreu em diversos estádios. Se houvesse policiamento, ocorreria da mesma forma". E transferiu toda a culpa para o clube, que poderia ter pago à PM catarinense, que cobra regularmente para dar segurança ao público em eventos privados.

Da mesma forma como ocorre com os vândalos feridos, não há inocentes em tragédias como a de domingo. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, emitiu nota oficial informando que o governo federal vai procurar o Conselho Nacional do Ministério Público para "discutir um entendimento comum" sobre a atuação da PM em estádios.

Na verdade, o MP nada tem o que fazer na prevenção da violência nos estádios, assunto restrito à autoridade policial. E o Estatuto do Torcedor já determina que torcedor violento seja obrigado a comparecer a uma delegacia duas horas antes de um jogo de seu time lá ficando até duas horas depois. Dependendo da gravidade do delito praticado, o vândalo pode até ser preso. A lei já existe há mais de dez anos e em 2009 o ex-presidente Lula da Silva e o antecessor de Rebelo no Ministério do Esporte, Orlando Silva, anunciaram uma ação mais dura contra torcedores briguentos, cambistas e outras pragas nacionais, além de cadastro de torcidas, venda de ingressos em casas lotéricas e monitoramento por câmeras. As mudanças do Estatuto foram feitas principalmente para coibir brigas em estádios. Se a polícia não abre inquérito, o MP não denuncia e a Justiça não condena tais delinquentes, só pode ser por inépcia e descaso.

IMPUNIDADE INCENTIVA SELVAGERIA NOS ESTÁDIOS



É crucial punir arruaceiros e banir dos estádios as gangues disfarçadas de torcida. A barbárie de Joinville requer resposta imediata de CBF, Justiça, clubes e poder público

EDITORIAL
O GLOBO - Publicado:10/12/13 - 0h00



A partida de anteontem entre Vasco e Atlético Paranaense, em Joinville, foi uma tragédia anunciada. E não se pode atribuir ao lamentável desfecho, com torcidas organizadas dos dois times promovendo cenas de selvageria nas arquibancadas do estádio, influência circunstancial de uma tabela que programou para a última rodada do Campeonato Brasileiro um jogo entre uma equipe que lutava para não ser rebaixada e outra que brigava por uma vaga na Libertadores.

Essa carga de drama também esteve presente em outros confrontos da rodada, disputados sem quaisquer sinais de violência extracampo. Antes, deve-se identificar em que nível de decisões do poder público do Paraná efetivamente começou a cadeia de leniência e medidas irresponsáveis da qual resultou a estapafúrdia ordem de desprover o estádio de policiamento adequado. Neste sentido, é no mínimo risível o argumento de que o jogo se tratava de um “evento privado”.

Ora, também passeatas, por exemplo, podem ser classificadas como tal, e nem por isso as autoridades deixam de guarnecê-las com agentes públicos de segurança. Jogos de futebol têm o potencial de afetar a segurança pública e de colocar em risco multidões, como aconteceu em Joinville. Precisam ter aparato policial à altura.

Este é o viés pontual do problema — mas não o único a exigir providências exemplares. Outro, ainda mais grave, é o crescimento exponencial da violência nos estádios e seu entorno. Enquanto do ponto de vista administrativo o futebol brasileiro faz um louvável esforço para melhorar sua gestão (equacionamento do calendário, ações que buscam o saneamento financeiro dos clubes, modernização das arenas etc.), a questão da segurança dos torcedores continua sendo tratada sem que medidas para banir a violência nos jogos sejam efetivamente adotadas. O Estatuto do Torcedor, por exemplo, não vem sendo aplicado como deve, salvo exceções, como o Rio de Janeiro.

Diante de um quadro que se deteriora de forma cada vez mais perigosa, é irrecorrível que poder público e entidades tomem atitudes drásticas contra marginais que, travestidos de torcedores, entram nos estádios não com o propósito de acompanhar uma partida, mas de promover barbáries como a de domingo. A mais imediata é acabar com a praga das torcidas organizadas, protagonistas desde sempre de atos de selvageria.

Cenas de violência como as de Joinville são condenáveis em quaisquer circunstâncias. E a essa barbárie acresce-se a preocupação com a proximidade da Copa. O que implica, da parte de CBF, clubes, Justiça desportiva e poder público, resposta rápida e eficiente: julgamento e punição de arruaceiros, banimento dos brigões dos estádios, como já acontece na Europa, sem prejuízo das medidas penais, e punição de clubes cujas torcidas se envolvam em atos de violência (jogar com portões fechados e, no extremo, perda de pontos e desclassificação das competições). É crucial desestimular as gangues disfarçadas de torcedores.

VIOLÊNCIA NOS ESTÁDIOS E NAS RUAS

O SUL, Porto Alegre, Terça-feira, 10 de Dezembro de 2013.


WANDERLEY SOARES

Estratégias de segurança sem uma visão global terão a tendência de abrir flancos em favor da violência


Creio, como um humilde marquês, que há alguns equívocos na discussão sobre os episódios de violência em nossos estádios de futebol que, com urgência, como diria Caetano Veloso "deveriam ser reparados, ou não". Ocorre que, a cada conflito, com raras exceções não previsíveis, é recozinhado o debate com os mesmos títulos - acabar com a impunidade, tornar a lei mais rígida, punir os clubes, impedir a entrada nos eventos de indivíduos reincidentes, colocar a Polícia Militar dentro dos estádios. Toda a polêmica tem, portanto, no frigir dos ovos, um só objetivo: acabar com os atos de violência dentro dos estádios por ocasião de grandes eventos. Parece lógico isso. No entanto, aqui da minha torre, não me parece tão lógico assim, especialmente em algumas projeções dadas como solução para o problema e que são feitas até mesmo por autoridades da segurança. Sigam-me


Inteligência


Parece-me que os atos de violência nos estádios não deveriam ser analisados como fatos isolados da formação de quadrilhas nas ruas e dentro dos presídios, da infiltração de bandidos mascarados nas manifestações sociais, das organizações de vândalos que danificam prédios públicos e particulares, do permanente risco do crescimento dos grupos de maníacos xenófobos. O risco da prática de atos de violência em eventos de maior magnitude, não somente nos estádios de futebol, tem de ser enfrentado com uma estratégia de segurança global e dirigida para cada evento com o máximo de informações dos serviços de inteligência, e nunca com meros sentimentos intuitivos


Taxas


Com isso, quero dizer também que a cobrança de taxas para as organizações policiais atuarem nos grandes eventos, dentro e fora dos locais onde as massas estão reunidas, deve ser o quanto antes definida. Mas, em primeiro plano, é obrigatória a projeção da segurança da população e, na hipótese de que esta equação não seja possível, o evento não deve ser realizado. Em verdade, as normas da segurança deveriam obedecer aos mesmos princípios dos dispositivos contra incêndios. Se eles não existem, o estabelecimento deve permanecer fechado. Enfim, separar os atos de violência que ocorrem nos estádios da violência do cotidiano em nossas ruas é um equívoco. As raízes são as mesmas e são elas que devem ser visadas.

QUEM NOS PROTEGE?


ZERO HORA 10 de dezembro de 2013 | N° 17640

CRISTIEL GASPARETTO


REPORTAGEM ESPECIAL


Nas vésperas da Copa do Mundo no Brasil, a violência nos estádios volta a ser manchete. O conflito entre torcedores de Atlético-PR e Vasco, no domingo, gera debates e questionamentos. De quem é a responsabilidade pela segurança? Para especialistas, do Estado.

Apresença da Polícia Militar na parte interna dos estádios é tema de debate desde a tarde do último domingo, quando cenas de barbárie foram registradas na Arena Joinville. A certeza é de que o exemplo de Santa Catarina, de não usar PMs em um jogo de risco, com torcidas acostumadas a confusões, mostrou-se equivocado. Para especialistas no tema violência no futebol, a segurança privada não tem a qualificação necessária para conter conflitos.

– Não estando no local (Joinville), não dá para saber se a segurança pública teria impedido. Mas se o país não conseguiu formar agentes públicos de segurança com mais inteligência, é difícil achar que exista preparo na segurança privada. O Estado não tem como abrir mão da segurança, isso até fere a nossa Constituição – comenta Heloisa Reis, professora da Unicamp e com pós-doutorado em Sociologia do Esporte.

Pesquisadora da violência e da prevenção dela no futebol, Heloisa destaca que agentes de segurança privada são bem-vindos, mas sendo preparados pela força pública.

– As brigas ocorrem por história de rivalidade entre clubes e torcidas. Há necessidade de conhecimento do problema, uma avaliação de risco. Esse jogo de domingo era de alto risco, um clube grande poderia ser rebaixado. Deveriam ter procedimentos de prevenção, uma divisão das torcidas por objetos intransponíveis – argumenta.

Para a professora, as organizadas são parte do problema. Ela culpa os promotores dos jogos por não evitarem a maioria dos conflitos.

– Os grupos violentos de torcedores são constituídos por homens que gostam de brigas e que desejam ser reconhecidos por isso. Se não há nenhum obstáculo físico entre os torcedores, o organizador falhou. Se não tem a força do Estado, o Estado falhou. Quem tem mais culpa? Aquele que não previu ou quem perdeu a cabeça? Cabe aos organizadores e ao Estado preverem estratégias que impeçam o contato. Falta ao Brasil trabalhar o tema com seriedade.

Opinião diferente tem o professor doutor George Felipe de Lima Dantas, formado na George Washington University, nos Estados Unidos. Para ele, muitas organizadas são gangues onde a violência e o crime são incentivados.

– A grande questão não é a torcida organizada, mas é em nome de quê elas existem? Se os clubes ajudam essas torcidas, eles estão patrocinando essa violência.

Promotor responsável pela Promotoria do Torcedor do Rio Grande do Sul, José Francisco Seabra Mendes Júnior, também é contrário à saída da polícia do interior dos estádios.

– Não estamos em um estágio de evolução cultural para desprezar o trabalho da Brigada. Tem o peso da farda, a BM realiza reuniões preparatórias, participa na prevenção. A segurança privada pode funcionar, mas como complemento. A BM tem know-how.

Projeto é cadastrar organizadas no RS

Entre as propostas para conter a violência nos estádios está o cadastramento das torcidas organizadas, que está previsto no Estatuto do Torcedor. Atualmente, tramita na Câmara de Vereadores de Porto Alegre um projeto que obriga os clubes a realizarem a identificação biométrica de quem frequentará a Arena do Grêmio e o Beira-Rio.

– A Argentina tem, fazem um cadastramento de todos os torcedores. É uma medida interessante, o torcedor perde o anonimato – opina o promotor Seabra.

No Rio Grande do Sul, os principais casos de conflitos são registrados entre torcidas do mesmo time, que brigam pela liderança.

– Estamos tentando a aproximação das organizadas com clubes, Federação Gaúcha de Futebol e autoridades de segurança.


Proposta gaúcha não evoluiu


Em setembro, a Brigada Militar procurou a dupla Gre-Nal e revelou que teve um gasto de R$ 8 millhões com emprego de policiamento nos estádios. A intenção era deixar de fazer o trabalho no interior da Arena e do Beira-Rio ou que a corporação fosse indenizada pelo serviço. A proposta, no entanto, não evoluiu, já que seria necessário a aprovação de um projeto de lei na Assembleia Legislativa.

– A BM se convenceu de que a presença dela é essencial, foi uma prova de bom senso. O conflito de multidões tem de ser gerido pela Brigada, que tem prática e recurso. Vamos continuar nos moldes que temos hoje – comenta o vice-presidente do Grêmio Nestor Hein.

Comandante do Comando de Polícia da Capital (CPC), João Diniz Godoi confirma que a Brigada gastou R$ 8 millhões com o trabalho nos estádios em 2012, devido ao deslocamento de efetivo e horas-extras.

– Retiramos o policiamento das ruas e concentramos nesse espaço (estádio) – enfatiza Godoi, que destaca a qualificação dos policiais.

– Temos pessoal preparado. Já fizemos finais de Libertadores, jogos da Seleção. Recebemos torcidas de Corinthians e Flamengo e nenhum incidente ocorreu.




ZERO HORA 10 de dezembro de 2013 | N° 17640 DO LEITOR

Violência

A selvageria vista pelos brasileiros na Arena Joinville no jogo entre Atlético-PR e Vasco é apenas uma das muitas situações de violência que imperam no país. A impunidade, aliada à omissão dos três poderes, favorece e incentiva a prática criminosa. O Código Penal é obsoleto, as leis são brandas, e menores e adultos assassinos são ungidos pela máxima de que precisam ter a chance de uma recuperação.

Rafael Moia Filho, Bauru – São Paulo (SP)

O lugar da Polícia Militar é protegendo o cidadão nas ruas. Dentro de estádios, é obrigação dos clubes qualificar e quantificar os seus seguranças para atender o torcedor.

Fabio Chaves, Via Facebook

As barbáries vistas no jogo entre Atlético-PR e Vasco somente comprovam a mais absoluta e completa falência da Justiça brasileira. Aquelas pessoas só fizeram o que fizeram confiando na impunidade.

Daniel Scherer Stürmer, Executivo de vendas – São Leopoldo

Dentro de estádios, estão milhares de contribuintes que pagam seus impostos para ter segurança. A Polícia Militar está aí para isso também.

Valcir Madalozzo, Via Facebook

É fácil organizar isso. Basta fazer um cadastro único do torcedor. Se ele se envolver em atos de violência, nunca mais entra em estádio.

Jozias Adriano Streit, Via Facebook

Todas essas situações deploráveis a que assistimos no jogo entre Atlético-PR e Vasco devem ser debitadas aos alojados no Palácio do Planalto, que se escondem de sua prerrogativa republicana de, a qualquer custo, manter a ordem, com medo de perder votos nas urnas. Os estádios são o grande teatro do futebol. Urgem ações duras para coibir de uma vez por todas esses espetáculos deprimentes.

Paulo Panossian, Jornalista – São Carlos (SP)